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Culpa por estar com Câncer?

células cancerígenas

O Jornal Folha de São Paulo trouxe nesse mês de março, uma excelente reportagem feita pela jornalista Cláudia Collucci, ela que é repórter especializada na área da saúde. Leiam o relato da jornalista e principalmente conversem sobre o assunto, pois assim vocês estarão colaborando nesse processo difícil que é a luta contra o câncer.

Ninguém deve se sentir culpado por desenvolver um câncer

Uma amiga muito próxima a mim sofreu uma recidiva de um câncer diagnosticado e tratado há dois anos.
Em meio à perplexidade e à dor, atualmente só contida com remédios à base de morfina, ela indaga os porquês. "Eu sempre me cuidei bem, como alimentos saudáveis, pratico atividade física, nunca fumei... Por que isso de novo?"
Nesses momentos, em vez de começar a desfiar um rosário de hipóteses e teorias, prefiro abraçá-la fortemente e dizer que estamos juntas, que vamos superar mais essa, que ela está sob bons cuidados médicos, que fez tudo o que tinha que ser feito e que não tem cabimento se sentir culpada por nada.

A literatura médica mostra que até dois terços dos casos de câncer têm origem em mutações ao acaso durante divisões celulares, ou seja, uma "má sorte". O outro terço seria atribuído a predisposição genética e fatores ambientais.
Mais recentemente, um levantamento feito por pesquisadores da Universidade Harvard, publicado na revista médica Jama, trouxe novos argumentos para esse debate.

Segundo os resultados, grande parte dos tumores malignos são evitáveis e podem ser prevenidos pela adoção de medidas altamente eficazes, como não fumar, não engordar excessivamente, ter uma alimentação rica em vegetais e andar 30 minutos, pelo menos cinco vezes por semana.

Minha amiga, minha mãe e mais uma infinidade de pessoas que conheço seguiram essa cartilha e nem por isso conseguiram evitar o câncer. Ou seja, mesmo fazendo a coisa certa, podemos cair naquele percentual de casos atribuídos à predisposição genética e à "má sorte" das mutações.
Por isso, não consigo me conter quando aparecem pessoas jogando para o paciente o "poder de cura" ou a culpa pela sua doença.

Não que eu duvide completamente do poder da fé ou da espiritualidade para várias questões da vida. Hoje esses temas são muito estudados na ciência e na saúde e há resultados bem interessantes.
Mas, em muitos casos, a explicação para a "cura" do câncer está na própria etiologia de determinados tumores.

Tenho uma amiga, por exemplo, que teve um diagnóstico de câncer de mama há 15 anos e recebeu recomendação de hormonioterapia e de extirpar as duas mamas. Ela não seguiu a orientação médica, adotou um determinado estilo de vida e está muito bem, obrigada. Hoje atribui a essa mudança de vida a "cura".
Cética que sou, acompanho desde então os estudos sobre esse tipo de câncer de mama, chamado carcinoma "ductal in situ". Ele é considerado não invasivo na maioria dos casos. As células anormais ainda estão confinadas nos canais que drenam o leite materno.

A questão é que ainda não se sabe quais desses tumores vão ou não progredir. E, para uma mulher jovem, não fazer nada pode ser muito temeroso, dizem os médicos.

Com o advento da mamografia, o diagnóstico do carcinoma "ductal in situ" aumentou de 3% para 25% em três décadas. Mas o índice de mortalidade permaneceu inalterado, independentemente do tratamento adotado.
Nos últimos anos, estudos apontaram que apenas 30% dos casos de carcinoma in situ evoluíram para um tumor agressivo. O resto teve crescimento lento e sem malignidade. Em alguns, houve regressão ou desaparecimento.

Provavelmente, foi o que aconteceu com o câncer da minha amiga. Já tentei explicar isso, mas ela prefere acreditar em outras propriedades curativas, como na própria "força do pensamento".

Mesmo não concordando, sempre a respeitei nessas questões. Na semana passada, porém, virei uma leoa quando ela sugeriu que a cura da minha outra amiga, que sofreu a recidiva do câncer, estava dentro dela.

Como já disse meu querido amigo Drauzio Varella, é muito perverso atribuir ao doente a culpa por haver contraído uma doença incurável e por ser incapaz de curá-la depois de tê-la adquirido. Reproduzo aqui um trecho de um artigo que ele escreveu há quase uma década e que eu recortei e guardei porque acho que sempre será muito atual:

"A crença na cura pela mente e a ignorância a respeito das causas de patologias complexas como o câncer são fontes inesgotáveis de preconceitos contra os que sofrem delas. Cansei de ver mulheres com câncer de mama mortificadas por acreditar que o nódulo maligno surgiu por lidarem mal com os problemas emocionais. E de ouvir familiares recriminarem a falta de coragem para reagir, em casos de pacientes enfraquecidos a ponto de não parar em pé. Acreditar na força milagrosa do pensamento pode servir ao sonho humano de dominar a morte. Mas atribuir a ela tal poder é um desrespeito aos doentes graves e à memória dos que já se foram."

Cláudia Collucci
Repórter especializada na área da saúde, é autora de 'Quero ser mãe' e 'Por que a gravidez não vem?'